Percolação 2D
Introdução
O objetivo deste trabalho é estudar, por meio de simulações de Monte Carlo, o problema da percolação de sítios em uma rede quadrada bidimensional. A percolação é um modelo estatístico simples, mas bastante útil para investigar como a conectividade de um sistema desordenado muda quando um determinado parâmetro é variado.
Esse tipo de problema aparece em diferentes contextos físicos e aplicados, como o escoamento de fluidos em meios porosos, a condução elétrica em materiais desordenados, a propagação de incêndios, a conectividade em redes e a transmissão de doenças em populações estruturadas. Em todos esses casos, a questão central é parecida: existe ou não um caminho conectado que atravessa o sistema?
Neste trabalho, considera-se uma rede quadrada de tamanho . Cada sítio da rede pode estar ocupado ou vazio. A ocupação de cada sítio ocorre aleatoriamente, com probabilidade . Para cada valor de , várias redes independentes são geradas. Em seguida, verifica-se se existe algum aglomerado de sítios ocupados conectando duas bordas opostas da rede. Quando isso acontece, dizemos que a rede percola.
O sistema apresenta uma transição entre dois regimes principais. Para valores baixos de , os sítios ocupados formam apenas pequenos aglomerados isolados. Para valores altos de , surge um aglomerado dominante que atravessa a rede. O valor crítico que separa esses dois comportamentos é chamado de limiar de percolação, indicado por .
Para a percolação de sítios em uma rede quadrada bidimensional, considerando apenas vizinhos de cima, baixo, esquerda e direita, o valor crítico esperado no limite de uma rede infinita é aproximadamente
A proposta deste trabalho é reproduzir numericamente esse comportamento, estudar os efeitos de tamanho finito, calcular barras de erro, analisar o tempo de computação, identificar o parâmetro de ordem e apresentar os diferentes regimes do sistema.
Definição do problema
O sistema estudado é uma rede quadrada bidimensional com sítios. Cada sítio pode assumir um de dois estados:
A ocupação de cada sítio é determinada pela probabilidade . Para cada posição da rede, sorteia-se um número aleatório , uniformemente distribuído no intervalo . Se , o sítio é ocupado. Caso contrário, o sítio permanece vazio.
Assim, quanto maior o valor de , maior é a fração média de sítios ocupados na rede. Por exemplo, para , aproximadamente 30% dos sítios estarão ocupados. Para , aproximadamente 80% dos sítios estarão ocupados.
Dois sítios ocupados são considerados conectados quando são vizinhos diretos. Neste trabalho, utiliza-se a vizinhança de quatro primeiros vizinhos, isto é, cada sítio pode se conectar apenas com os sítios imediatamente acima, abaixo, à esquerda e à direita. As diagonais não são consideradas conexões.
A vizinhança adotada pode ser representada esquematicamente por
Um aglomerado é definido como um conjunto de sítios ocupados conectados entre si. O sistema é dito percolante quando existe pelo menos um aglomerado que conecta duas bordas opostas da rede. Neste trabalho, considera-se que há percolação quando um aglomerado conecta a borda superior à inferior ou a borda esquerda à direita.
Método de Monte Carlo
O método de Monte Carlo é utilizado porque o sistema é gerado a partir de processos aleatórios. Uma única rede não representa necessariamente o comportamento médio do sistema. Por isso, para cada valor de e para cada tamanho de rede , são geradas várias realizações independentes.
O procedimento geral da simulação é:
- Escolher o tamanho da rede ;
- Escolher a probabilidade de ocupação ;
- Gerar uma matriz aleatória ;
- Marcar cada sítio como ocupado com probabilidade ;
- Identificar os aglomerados de sítios ocupados;
- Verificar se algum aglomerado conecta duas bordas opostas;
- Calcular as grandezas de interesse;
- Repetir o processo muitas vezes para obter médias estatísticas e barras de erro.
De forma resumida, o algoritmo pode ser escrito como:
A identificação dos aglomerados foi feita por rotulagem de componentes conectados. Nesse procedimento, cada grupo de sítios ocupados conectados recebe um rótulo. Depois disso, verifica-se quais rótulos aparecem nas bordas da rede. Se o mesmo rótulo aparece em duas bordas opostas, então esse aglomerado atravessa o sistema e a rede percola.
Regimes físicos da percolação
O modelo de percolação apresenta dois regimes principais, separados por uma região crítica.
No regime subcrítico, isto é, para , há poucos sítios ocupados. Os aglomerados formados são pequenos e desconectados. Não existe um caminho contínuo atravessando o sistema.
Na região crítica, isto é, para , os aglomerados tornam-se maiores, mais ramificados e mais irregulares. Pequenas variações em podem alterar de forma significativa a probabilidade de percolação.
No regime supercrítico, isto é, para , aparece um aglomerado dominante que atravessa a rede. Nesse caso, há conectividade de longo alcance.

Figura 1: Exemplos visuais da percolação de sítios em uma rede quadrada bidimensional. Os sítios vazios aparecem em branco, os sítios ocupados aparecem em cinza e o maior aglomerado aparece destacado em preto. Para valores baixos de p, os aglomerados são pequenos e desconectados. Perto de p_c, aparecem estruturas maiores e ramificadas. Para valores altos de p, surge um aglomerado dominante atravessando o sistema.
A Figura 1 ilustra os três regimes. Para , a rede está abaixo do limiar crítico e não apresenta conectividade de longo alcance. Para , o sistema está próximo da região crítica. Para , há um aglomerado grande que atravessa a rede, caracterizando o regime percolante.
Probabilidade de percolação
A primeira grandeza analisada foi a probabilidade de percolação, indicada por . Para um tamanho de rede e uma probabilidade de ocupação , essa grandeza é definida por
onde é o número de realizações em que a rede percolou e é o número total de realizações simuladas.
Quando , quase nenhuma rede percola. Quando , quase todas as redes percolam. Perto do limiar crítico , a probabilidade de percolação cresce rapidamente.
No limite de uma rede infinita, a transição entre os regimes não percolante e percolante seria abrupta. Entretanto, como as simulações são feitas em redes finitas, a transição aparece suavizada. Esse efeito é uma consequência do tamanho finito do sistema.
A Figura 2 mostra a probabilidade de percolação para diferentes tamanhos de rede. Para valores pequenos de , a probabilidade de percolação é próxima de zero. Para valores grandes de , a probabilidade se aproxima de um. A transição ocorre próxima de , em concordância com o valor esperado para a rede quadrada bidimensional.
Também é possível observar que a curva se torna mais inclinada conforme o tamanho da rede aumenta. Isso indica que redes maiores se aproximam melhor do comportamento esperado no limite termodinâmico.
Barras de erro
Como o método de Monte Carlo é estatístico, é necessário estimar as incertezas associadas às grandezas medidas.
No caso da probabilidade de percolação, cada realização pode ser vista como um evento binário: a rede percola ou não percola. Dessa forma, a incerteza estatística pode ser estimada por uma expressão binomial:
Essa expressão mostra que a incerteza diminui quando o número de realizações independentes aumenta. Portanto, simulações com mais amostras produzem curvas mais suaves e barras de erro menores.
Para outras grandezas, como o tamanho médio do maior aglomerado, as barras de erro foram calculadas usando o erro padrão da média:
onde é o desvio padrão das medidas individuais e é o número de realizações independentes.
As barras de erro são especialmente importantes perto da região crítica, onde as flutuações entre diferentes realizações tornam-se maiores.
Parâmetro de ordem
O parâmetro de ordem escolhido para caracterizar a transição foi a fração da rede pertencente ao maior aglomerado. Essa grandeza é definida como
onde é o número de sítios ocupados no maior aglomerado da rede.
Esse parâmetro mede a presença de conectividade macroscópica. Abaixo do limiar crítico, o maior aglomerado ocupa apenas uma pequena fração da rede. Acima do limiar crítico, surge um aglomerado dominante, e cresce de forma significativa.
Assim, funciona como um parâmetro de ordem para o problema de percolação. Ele é pequeno no regime não percolante e torna-se grande no regime percolante.
A Figura 3 apresenta o comportamento de em função de . Para valores baixos de , o maior aglomerado representa uma fração pequena da rede. Conforme aumenta e se aproxima de , ocorre um crescimento acentuado. Para valores acima de , o maior aglomerado passa a ocupar uma parte significativa do sistema.
Suscetibilidade geométrica
Além do parâmetro de ordem, também foi calculada uma grandeza análoga à suscetibilidade, associada ao tamanho médio dos aglomerados finitos. Essa grandeza é útil porque indica o aumento das flutuações perto da região crítica.
A suscetibilidade geométrica pode ser escrita como
onde é o tamanho de um aglomerado e é o número de aglomerados de tamanho . No cálculo, o maior aglomerado é excluído, pois no regime supercrítico ele pode corresponder ao aglomerado percolante.
A grandeza mede o tamanho típico dos aglomerados finitos. Perto do limiar crítico, os aglomerados tornam-se maiores e mais ramificados, fazendo com que apresente um máximo.
A Figura 4 mostra a suscetibilidade geométrica em função de . O pico próximo de indica que, nessa região, as flutuações do sistema são mais intensas. Esse comportamento é característico de fenômenos críticos.
Análise de tamanho finito
A análise de tamanho finito é uma parte essencial deste trabalho. Como as simulações são feitas em redes com tamanho limitado, a transição não aparece de forma perfeitamente abrupta. Em vez disso, cada tamanho apresenta uma curva suavizada.
Foram simuladas redes de diferentes tamanhos, como
Para cada tamanho, foi estimado um limiar efetivo . Uma forma simples de estimar esse valor é encontrar o ponto em que a probabilidade de percolação é igual a 0.5:
Esse valor representa a probabilidade de ocupação na qual metade das redes simuladas percola.
Em sistemas finitos, pode se desviar do valor crítico do sistema infinito. Porém, conforme aumenta, espera-se que se aproxime de . Para a percolação bidimensional, esse deslocamento pode ser analisado aproximadamente pela relação
com
A Figura 5 mostra a estimativa de em função de . A extrapolação para corresponde ao limite de tamanho infinito. O resultado esperado é que essa extrapolação se aproxime de .
Essa análise mostra como os resultados numéricos dependem do tamanho do sistema e permite comparar os dados simulados com o valor crítico conhecido.
Colapso de escala
Uma forma adicional de verificar a consistência da análise de tamanho finito é usar uma variável de escala. Perto do ponto crítico, a probabilidade de percolação pode ser escrita aproximadamente como uma função da combinação
Assim, ao representar em função de , curvas de diferentes tamanhos tendem a se aproximar de uma curva universal.
A Figura 6 mostra o colapso de escala aproximado. As curvas não precisam coincidir perfeitamente, pois as simulações foram feitas com tamanhos finitos e número finito de amostras. Mesmo assim, a aproximação entre elas indica que o comportamento observado é compatível com a teoria de escala para percolação.
Tempo de computação
O tempo de computação também foi analisado. Para cada realização, é necessário gerar uma rede aleatória e identificar seus aglomerados. Como a rede possui sítios, o custo computacional tende a crescer aproximadamente com a área da rede.
Assim, espera-se que o tempo por realização cresça aproximadamente como
O tempo total da simulação depende também do número de valores de e do número de realizações independentes. De forma aproximada,
onde é o número de valores de simulados e é o número de realizações independentes para cada valor de .
A Figura 7 mostra o tempo médio de computação por realização em função de . A curva medida é comparada com uma referência proporcional a . Esse resultado confirma que redes maiores exigem mais tempo de processamento, pois possuem mais sítios a serem gerados e analisados.
Resumo dos parâmetros usados
Os principais parâmetros utilizados nas simulações foram escolhidos de modo a permitir a análise da transição de percolação, dos efeitos de tamanho finito, das barras de erro e do tempo de computação.
- : representa o tamanho linear da rede quadrada. Foram utilizadas redes com , , e . Como a rede possui dimensões , o número total de sítios é dado por .
- : representa a probabilidade de ocupação de cada sítio da rede. Os valores simulados foram escolhidos no intervalo entre e , de modo a incluir tanto o regime não percolante quanto o regime percolante.
- : representa o número de realizações independentes feitas para cada par de valores . Neste trabalho, foram usadas realizações para cada ponto simulado.
- Vizinhança: foi usada a vizinhança de quatro primeiros vizinhos. Assim, um sítio ocupado pode se conectar apenas com os sítios ocupados acima, abaixo, à esquerda e à direita. As conexões diagonais não foram consideradas.
- : representa o limiar crítico esperado para a percolação de sítios em uma rede quadrada bidimensional. O valor teórico usado como referência foi .
Discussão dos resultados
Os resultados obtidos reproduzem qualitativamente o comportamento esperado para a percolação de sítios em uma rede quadrada bidimensional.
A probabilidade de percolação apresenta uma transição clara em torno de . Para valores menores que esse limiar, quase nenhuma realização apresenta um aglomerado atravessando a rede. Para valores maiores, a maior parte das redes passa a percolar.
A análise do parâmetro de ordem mostra o surgimento de um aglomerado dominante no regime supercrítico. Esse resultado é consistente com a interpretação física da percolação como uma transição entre um regime sem conectividade macroscópica e um regime com conectividade de longo alcance.
A suscetibilidade geométrica apresenta um pico próximo à região crítica, indicando que os aglomerados finitos atingem tamanhos maiores perto do limiar de percolação. Esse comportamento é típico de sistemas críticos, nos quais as flutuações aumentam significativamente na vizinhança do ponto crítico.
A análise de tamanho finito mostra que a transição se torna mais definida à medida que aumenta. Redes pequenas apresentam maior suavização da transição, enquanto redes maiores se aproximam melhor do comportamento esperado para o sistema infinito.
Por fim, a análise do tempo de computação mostra que o custo cresce aproximadamente com o número de sítios da rede. Esse resultado é esperado, pois cada realização exige a geração e a análise de uma matriz com posições.
Conclusão
Neste trabalho, foi estudado o problema da percolação de sítios em uma rede quadrada bidimensional usando simulações de Monte Carlo. O modelo consiste em ocupar aleatoriamente os sítios de uma rede com probabilidade e verificar se existe um aglomerado conectado atravessando o sistema.
Os resultados mostram a existência de uma transição entre uma fase não percolante e uma fase percolante. Essa transição ocorre próxima ao valor crítico esperado
Foram calculadas a probabilidade de percolação, o parâmetro de ordem associado ao maior aglomerado e uma suscetibilidade geométrica relacionada aos aglomerados finitos. Também foram estimadas barras de erro a partir de realizações independentes e realizada uma análise de tamanho finito usando diferentes valores de .
A simulação confirma que, para redes finitas, a transição é suavizada, mas torna-se mais abrupta conforme o tamanho da rede aumenta. A extrapolação de tamanho finito permite comparar os resultados numéricos com o valor crítico conhecido para o sistema infinito.
Além disso, a análise do tempo de computação mostra que o custo cresce aproximadamente com , refletindo o aumento do número de sítios da rede.
Portanto, a percolação 2D é um problema adequado para estudar Monte Carlo, transições críticas, efeitos de tamanho finito, barras de erro, parâmetros de ordem e regimes físicos distintos de maneira visual e computacionalmente acessível.
Referências
- Stauffer, D.; Aharony, A. Introduction to Percolation Theory. Taylor & Francis.
- Newman, M. E. J.; Ziff, R. M. Efficient Monte Carlo algorithm and high-precision results for percolation. Physical Review Letters, 85, 4104, 2000.
- Grimmett, G. Percolation. Springer.





