Modelo de Gray-Scott: mudanças entre as edições

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!colspan="2"|Modelo Turing com <math>(a, b, c, d) = (1, -1, 2, -1.5)</math> e <math>(D_u, D_v) = (10^{-4}, 6 \times 10^{-4})</math>
!colspan="2"|Modelo Turing com <math>(a, b, c, d) = (1, -1, 2, -1.5)</math> e <math>(D_u, D_v) = (10^{-4}, 6 \times 10^{-4})</math>
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Edição das 18h08min de 25 de fevereiro de 2022

Introdução

Descrição do Modelo

O modelo de Gray-Scott descreve uma reação autocatalítica. Sejam duas substâncias químicas cujas concentrações em um dado ponto do espaço são dadas pelas variáveis u e v, a reação pode ser representada como

u+2v3v

Isso significa que uma molécula da substância u é transformada em uma molécula da substância v por meio da ação de outras duas moléculas da substância v, ou seja, v é um catalisador de sua própria produção (daí o termo autocatálise). Além dessa reação, ambas substâncias se difundem pelo meio (por isso esse modelo pertence à classe mais geral de modelos reativos-difusivos) e, portanto, as concentrações u e v mudam com o tempo e diferem em cada ponto. Por simplicidade, assume-se que a reação reversa (i.e., 3vu+2v) não ocorre. Há reposição de u a uma taxa F (taxa de alimentação, feed rate) e remoção de v a uma taxa ligeiramente mais rápida do que a reposição de u.

O comportamento geral do sistema pode ser descrito pelas equações abaixo:

ut=uv2+F(1u)+Du2uvt=uv2(F+k)v+Dv2v(1)

Análise de estabilidade

Nota: A análise em toda esta seção pressupõe sempre que os parâmetros e coeficientes de difusão são positivos.

Soluções estacionárias sem difusão

O modelo de Gray-Scott depende dos parâmetros F,k e dos coeficientes de difusão Du,Dv das espécies químicas. Ignorando em um primeiro momento os termos de difusão, percebe-se que, por inspeção, o sistema possui uma solução estacionária em (u*,v*)=(1,0) para quaisquer valores dos parâmetros. Esse ponto, no entanto, não é a única solução estacionária do sistema; para encontrar as outras, é necessário impor u/t=v/t=0 nas equações do sistema. Fazendo isso e dispensando os termos de difusão (Du=Dv=0), obtém-se o seguinte sistema de equações:

uv2+F(1u)=0uv2(F+k)v=0(2)

Somando essas duas equações, relacionamos as variáveis u e v:

F(1u)(F+k)v=0u=1γv

onde definiu-se o parâmetro auxiliar γ=F+kF.

Substituindo u na segunda equação do sistema (2) (e reescrevendo F+k=γF), ficamos com:

(1γv)v2γFv=0γv3+v2γFv=0

Evidentemente, v=0 é solução dessa equação, implicando em u=1, como já havíamos inspecionado. Alternativamente, considerando v0, podemos dividir a expressão acima por v, ficando com γv2+vγF=0. Resolvendo esta equação quadrática, obtemos duas novas soluções estacionárias para v:

v±=12γ(1±14γ2F)

Disso, pela relação u=1γv, temos que os valores correspondentes para u são:

u=12(114γ2F)

É necessário apontar que, para que as duas últimas soluções (não-triviais) existam — isto é, sejam números reais — o fator dentro da raiz quadrada tem de ser positivo ( 14γ2F0 ). Por consequência:

4γ2F14(F+kF)2F1F4(F+k)2, para que existam as soluções não-triviais.

Portanto, há três soluções estacionárias (ui*,vi*) do sistema:[1]

u0*=1v0*=0u1*=12(1+14γ2F)v1*=12γ(114γ2F)u2*=12(114γ2F)v2*=12γ(1+14γ2F)

Estabilidade dos estados estacionários (sem difusão)

Para avaliar a estabilidade das soluções acima, faz-se necessário obter a matriz Jacobiana dos termos de reação, Ri(u,v). Explicitamente, analisando o sistema (1) de equações, temos que R1(u,v)=uv2+F(1u) e R2(u,v)=uv2(F+k)v. A matriz Jacobiana do sistema é então dada por:

JR(u,v)=[uR1vR1uR2vR2]=[v2F2uvv22uv(F+k)]

Analisemos a estabilidade para os três pares (ui*,vi*) de soluções estacionárias:

  • Para (u0*,v0*)=(1,0):
JR(u0*,v0*)=[F00(F+k)]
Por essa ser uma matriz diagonal, os autovalores λi são justamente as entradas das diagonais; ou seja, λ1=F e λ2=(F+k). Uma vez que F e k são parâmetros positivos, os dois autovalores são reais e negativos, e portanto o ponto (u0*,v0*) é sempre estável.
  • Para (u1,2*,v1,2*)=(12(1±14γ2F),12γ(114γ2F)), podemos utilizar uma estratégia que simplifica as contas. Em particular, nota-se que os dois pontos obedecem à segunda equação do sistema (2) com v0. Desse modo, se dividirmos tal equação por v, percebemos que ambos os pontos obedecem a:
ui*vi*(F+k)=0
Dessa equação, podemos calcular as entradas da segunda coluna da matriz jacobiana com facilidade:
2ui*vi*=2(F+k)
2ui*vi*(F+k)=(F+k)
Assim, a matriz jacobiana desses pontos fica:
JR(ui*,vi*)=[(vi*)2F2(F+k)(vi*)2(F+k)],i=1,2.
Sabemos que o produto dos autovalores dessa matriz é igual ao seu determinante. Calculando-o, obtém-se:
Δi:=det(JR(ui*,vi*))=(F+k)[(vi*)2F]
Dividindo por F(F+k):
ΔiF(F+k)=(vi*)2F1=[114(γF)22(γF)]21=[114a22a]21
onde se definiu a=γF (observação: este é o γ definido no Gros). Nota-se que a condição de existência a21/4 para os dois pontos não-triviais é equivalente a F4(F+k)2. Expandindo os termos, é possível mostrar que a expressão acima pode ser reescrita como:
ΔiF(F+k)=14a22a2(14a21)
  • Para o caso i=1 (sinal negativo), temos a cota superior 14a2<1. Portanto, Δ1<0 para todo a que satisfaça a condição de existência. Como o determinante é negativo, sabemos que os autovalores são reais (comentário: como as entradas da matriz são reais, se os autovalores fossem complexos, seriam também conjugados, de modo que o produto deles fosse igual ao módulo ao quadrado de qualquer um, que seria um valor positivo). Ademais, como seu produto é negativo, eles têm sinais opostos; isto é, um deles é positivo, de modo que o ponto (u1*,v1*) nunca seja estável. Depreendemos desse raciocínio que o determinante da matriz jacobiana de entradas reais ser positivo é uma condição necessária para que haja estabilidade do ponto.
  • Já para i=2 (sinal positivo), temos sempre que Δ2>0. Para verificar a estabilidade, temos que agora calcular o traço da matriz jacobiana, pois o traço é a soma dos autovalores: se os autovalores são reais, eles têm o mesmo sinal por seu determinante ser positivo, de modo que o traço compartilhe o sinal com os dois autovalores; se os autovalores λi são complexos, eles serão conjugados e o traço será tr(JR)=2Re(λi), de modo que a parte real dos autovalores tenha o mesmo sinal do traço. Assim, basta que o traço seja negativo para que o ponto seja estável, e que seja positivo para que seja instável.
No caso, temos que tr(JR(u2*,v2*))=k(v2*)2. Esse traço é negativo quando (v2*)2>k; ou seja, (u2*,v2*) é estável quando (v2*)2>k...



Esse estado de equilíbrio é estável porque a matriz jacobiana J|(u*,v*)=(1,0)=(F00Fk) possui traço negativo e determinante positivo[2].



Se agora incluímos os termos de difusão Du e Dv, deve-se levar em consideração a matriz (JDω2)|f=feq. Aqui, J é a matriz jacobiana dos termos de reação, D é a matriz diagonal dos termos de difusão e ω é o parâmetro que determina a frequência espacial das perturbações. A demonstração da validade desse método pode ser encontrada na referência[2]. Aplicando ao modelo de Gray-Scott em (u*,v*)=(1,0):


((Fv22uvv2Fk+2uv)(Du00Dv)ω2)|(u*,v*)=(1,0)=(FDuω200FkDvω2)


Para que o estado de equilíbrio (u*,v*)=(1,0) seja estável é necessário que o determinante da matriz acima seja positivo e o traço seja negativo. Obtém-se então


(F+Duω2)(F+k+Dvω2)>0

2F(Du+Dv)ω2k<0


Ambas desigualdades são imediatamente satisfeitas para quaisquer valores de F,k,Du, e Dv. Portanto, o estado de equilíbrio (u*,v*)=(1,0) permanece estável no modelo de Gray-Scott mesmo após a inclusão dos coeficientes de difusão, sejam quais forem os valores desses coeficientes (lembrando que estamos nos restringindo a valores positivos dos parâmetros e coeficientes).

Esse é um resultado à primeira vista surpreendente. Em geral, o surgimento de padrões complexos e não homogêneos em sistemas reativos-difusivos está relacionado à desestabilização de um ou mais estados de equilíbrio homogêneo causada pela introdução dos coeficientes de difusão (conhecida como instabilidade de Turing)[3].

Entretanto, no caso do modelo de Gray-Scott, o surgimento de padrões complexos e não homogêneos não decorre da instabilidade de Turing, uma vez que o surgimento de padrões não triviais nesse modelo ocorre mesmo quando apenas o estado de equilíbrio trivial (u*,v*)=(1,0) está presente [1].

Implementação

Será usado o método FTCS (Foward Time Central Space) para integrar as equações do modelo. Como existem explicações do método em toda literatura e em outras entradas da Wiki (ver, por exemplo, Modelo de Turing), a explicação aqui será sucinta.

O método consiste em discretizar a derivada parcial em relação ao tempo para frente e discretizar as derivadas parciais de segunda ordem em relação ao espaço centralmente. Para uma função f(x,y,t):


ftf(x,y,t+Δt)f(x,y,t)Δt


2fx2f(x+Δx,y,t)2f(x,y,t)+f(xΔx,y,t)Δx2


2fy2f(x,y+Δy,t)2f(x,y,t)+f(x,yΔy,t)Δy2


A partir das duas últimas equações acima é fácil mostrar que o laplaciano em duas dimensões, como será usado no presente trabalho, pode ser escrito como


2f(x,y,t)f(x+Δx,y,t)2f(x,y,t)+f(xΔx,y,t)Δx2+f(x,y+Δy,t)2f(x,y,t)+f(x,yΔy,t)Δy2


Fazendo Δx=Δy=Δh, pode-se simplificar a discretização do laplaciano para


2f(x,y,t)=f(x+Δh,y,t)+f(xΔh,y,t)+f(x,y+Δh,t)+f(x,yΔh,t)4f(x,y,t)Δh2


Usando a notação f(x±Δh,y±Δh,t±Δt)fi±1,j±1n±1 é possível então escrever as equações do modelo de forma discretizada:


ui,jn+1=ui,jn+[ui,jn(vi,jn)2+F(1ui,jn)+Duui+1,jn+ui1,jn+ui,j+1n+ui,j1n4ui,jnΔh2]Δt

vi,jn+1=vi,jn+[ui,jn(vi,jn)2(F+k)vi,jn+Dvvi+1,jn+vi1,jn+vi,j+1n+vi,j1n4vi,jnΔh2]Δt


Utilizou-se uma rede quadrada de tamanho 69×69 com condições de contorno periódicas. O estado do inicial do sistema é aquele em que todos os pontos estão no estado de equilíbrio estável trivial (u,v)=(1,0), exceto o ponto central, em que é introduzida uma perturbação com (u,v)=(0,1), como simulado por Sayama[2].

A formação de padrões no modelo depende fortemente não apenas dos parâmetros e coeficientes de difusão, mas também da resolução, Δh, e do tamanho do grid.

Resultados e discussão

Modelo Turing com (a,b,c,d)=(1,1,2,1.5) e (Du,Dv)=(104,6×104)
Alt text
Simulação do Modelo de Turing da concentração de u.
Alt text
Simulação do Modelo de Turing da concentração de v.

Programa

Simulação do Modelo de Gray-Scott


Referências

  1. 1,0 1,1 C. Gros, "Complex and Adaptive Dynamical Systems". Springer-Verlag, Berlim, 2015.
  2. 2,0 2,1 2,2 H. Sayama, "Introduction to the Modeling and Analysis of Complex Systems". Open SUNY Textbooks, Geneseo, NY, 2015.
  3. Week 13, MCB111: Mathematics in Biology (Fall 2021)