Modelo de Gray-Scott: mudanças entre as edições

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Entretanto, no caso do modelo de Gray-Scott, o surgimento de padrões complexos e não homogêneos '''não''' decorre da instabilidade de Turing, uma vez que o surgimento de padrões não triviais nesse modelo ocorre mesmo quando apenas o estado de equilíbrio trivial <math>(u^{*}, v^{*}) = (1, 0)</math> está presente <ref name=Gros/>.  
Entretanto, no caso do modelo de Gray-Scott, o surgimento de padrões complexos e não homogêneos '''não''' decorre da instabilidade de Turing, uma vez que o surgimento de padrões não triviais nesse modelo ocorre mesmo quando apenas o estado de equilíbrio trivial <math>(u^{*}, v^{*}) = (1, 0)</math> está presente <ref name=Gros/>.  
== Implementação ==
Será usado o método FTCS (Foward Time Central Space) para integrar as equações do modelo. Como existem explicações do método em toda literatura e em outras entradas da Wiki [[Título do link]], a explicação aqui será sucinta.
O método consiste em discretizar a derivada parcial em relação ao tempo para frente e discretizar as derivadas parciais de segunda ordem em relação ao espaço centralmente. Para uma função <math>f(x,y,t)</math>: 
<math>\frac{\partial f}{\partial t} \approx \frac{f(x, y, t + \Delta t) - f(x, y, t)}{\Delta t}</math>
<math>\frac{\partial^2 f}{\partial x^2} \approx \frac{f(x + \Delta x, y, t) - 2f(x, y, t) + f(x - \Delta x, y, t)}{\Delta x^2}</math>
<math>\frac{\partial^2 f}{\partial y^2} \approx \frac{f(x, y + \Delta y,t) - 2f(x,y,t) + f(x, y - \Delta y,t)}{\Delta y^2}</math>
A partir das duas últimas equações acima é fácil mostrar que o laplaciano em duas dimensões, como será usado no presente trabalho, pode ser escrito como
<math> \nabla^2 f(x,y,t) \approx \frac{f(x + \Delta x, y, t) - 2f(x, y, t) + f(x - \Delta x, y, t)}{\Delta x^2} + \frac{f(x, y + \Delta y, t) - 2f(x, y, t) + f(x, y - \Delta y, t)}{\Delta y^2}</math>
Fazendo <math>\Delta x = \Delta y = \Delta h</math>, pode-se simplificar a discretização do laplaciano para
<math> \nabla^2 f(x,y,t) = \frac{f(x + \Delta h, y, t) + f(x - \Delta h, y, t) + f(x, y + \Delta h,t) + f(x, y - \Delta h,t) - 4f(x, y, t)}{\Delta h^2}</math>
Usando a notação <math>f(x \pm \Delta h, y \pm \Delta h, t \pm \Delta t) \equiv f^{n \pm 1}_{i \pm 1, j \pm 1} </math> é possível então escrever as equações do modelo de forma discretizada:
<math>u_{i,j}^{n+1} = u_{i,j}^{n} + \left[ -u_{i,j}^{n}(v_{i,j}^{n})^{2} + F(1-u_{i,j}^{n}) + D_u\frac{u_{i+1,j}^{n} + u_{i-1,j}^{n} + u_{i,j+1}^{n} + u_{i,j-1}^{n} - 4u_{i,j}^{n}}{\Delta h^2}\right]\Delta t</math>
<math>v_{i,j}^{n+1} = v_{i,j}^{n} + \left[ u_{i,j}^{n}(v_{i,j}^{n})^{2} - (F+k)v_{i,j}^{n} + D_v\frac{v_{i+1,j}^{n} + v_{i-1,j}^{n} + v_{i,j+1}^{n} + v_{i,j-1}^{n} - 4v_{i,j}^{n}}{\Delta h^2}\right]\Delta t</math>
Utilizou-se uma rede quadrada de tamanho <math>69 \times 69</math> com condições de contorno periódicas. O estado do inicial do sistema é aquele em que todos os pontos estão no estado de equilíbrio estável trivial <math>(u, v) = (1, 0)</math>, exceto o ponto central, em que é introduzida uma perturbação com <math>(u, v) = (0, 1)</math>, como simulado por Sayama<ref name=Sayama260/>.
A formação de padrões no modelo depende fortemente não apenas dos parâmetros e coeficientes de difusão, mas também de <math>\Delta h</math> e <math>\Delta t</math>.





Edição das 18h58min de 24 de fevereiro de 2022

Introdução

Descrição do Modelo

O modelo de Gray-Scott descreve uma reação autocatalítica. Sejam duas substâncias químicas cujas concentrações em um dado ponto do espaço são dadas pelas variáveis u e v, a reação pode ser representada como

u+2v3v

Isso significa que uma molécula da substância u é transformada em uma molécula da substância v por meio da ação de outras duas moléculas da substância v, ou seja, v é um catalisador de sua própria produção (daí o termo autocatálise). Além dessa reação, ambas substâncias se difundem pelo meio (por isso esse modelo pertence à classe mais geral de modelos reativos-difusivos) e, portanto, as concentrações u e v mudam com o tempo e diferem em cada ponto. Por simplicidade, assume-se que a reação reversa (i.e., 3vu+2v) não ocorre. Há reposição de u a uma taxa F (taxa de alimentação, feed rate) e remoção de v a uma taxa ligeiramente mais rápida do que a reposição de u.

O comportamento geral do sistema pode ser descrito pelas equações abaixo:

ut=uv2+F(1u)+Du2uvt=uv2(F+k)v+Dv2v(1)

Análise de estabilidade

Nota: A análise em toda esta seção pressupõe sempre que os parâmetros e coeficientes de difusão são positivos.

Soluções estacionárias sem difusão

O modelo de Gray-Scott depende dos parâmetros F,k e dos coeficientes de difusão Du,Dv das espécies químicas. Ignorando em um primeiro momento os termos de difusão, percebe-se que, por inspeção, o sistema possui uma solução estacionária em (u*,v*)=(1,0) para quaisquer valores dos parâmetros. Esse ponto, no entanto, não é a única solução estacionária do sistema; para encontrar as outras, é necessário impor u/t=v/t=0 nas equações do sistema. Fazendo isso e dispensando os termos de difusão (Du=Dv=0), obtém-se o seguinte sistema de equações:

uv2+F(1u)=0uv2(F+k)v=0(2)

Somando essas duas equações, relacionamos as variáveis u e v:

F(1u)(F+k)v=0u=1γv

onde definiu-se o parâmetro auxiliar γ=F+kF.

Substituindo u na segunda equação do sistema (2) (e reescrevendo F+k=γF), ficamos com:

(1γv)v2γFv=0γv3+v2γFv=0

Evidentemente, v=0 é solução dessa equação, implicando em u=1, como já havíamos inspecionado. Alternativamente, considerando v0, podemos dividir a expressão acima por v, ficando com γv2+vγF=0. Resolvendo esta equação quadrática, obtemos duas novas soluções estacionárias para v:

v±=12γ(1±14γ2F)

Disso, pela relação u=1γv, temos que os valores correspondentes para u são:

u=12(114γ2F)

É necessário apontar que, para que as duas últimas soluções (não-triviais) existam — isto é, sejam números reais — o fator dentro da raiz quadrada tem de ser positivo ( 14γ2F0 ). Por consequência:

4γ2F14(F+kF)2F1F4(F+k)2, para que existam as soluções não-triviais.

Portanto, há três soluções estacionárias (ui*,vi*) do sistema:[1]

u0*=1v0*=0u1*=12(1+14γ2F)v1*=12γ(114γ2F)u2*=12(114γ2F)v2*=12γ(1+14γ2F)

Estabilidade dos estados estacionários

Para avaliar a estabilidade das soluções acima, faz-se necessário obter a matriz Jacobiana dos termos de reação, Ri(u,v). Explicitamente, analisando o sistema (1) de equações, temos que R1(u,v)=uv2+F(1u) e R2(u,v)=uv2(F+k)v. A matriz Jacobiana do sistema é então dada por:

JR(u,v)=(uR1vR1uR2vR2)



Esse estado de equilíbrio é estável porque a matriz jacobiana J|(u*,v*)=(1,0)=(F00Fk) possui traço negativo e determinante positivo[2].



Se agora incluímos os termos de difusão Du e Dv, deve-se levar em consideração a matriz (JDω2)|f=feq. Aqui, J é a matriz jacobiana dos termos de reação, D é a matriz diagonal dos termos de difusão e ω é o parâmetro que determina a frequência espacial das perturbações. A demonstração da validade desse método pode ser encontrada na referência[2]. Aplicando ao modelo de Gray-Scott em (u*,v*)=(1,0):


((Fv22uvv2Fk+2uv)(Du00Dv)ω2)|(u*,v*)=(1,0)=(FDuω200FkDvω2)


Para que o estado de equilíbrio (u*,v*)=(1,0) seja estável é necessário que o determinante da matriz acima seja positivo e o traço seja negativo. Obtém-se então


(F+Duω2)(F+k+Dvω2)>0

2F(Du+Dv)ω2k<0


Ambas desigualdades são imediatamente satisfeitas para quaisquer valores de F,k,Du, e Dv. Portanto, o estado de equilíbrio (u*,v*)=(1,0) permanece estável no modelo de Gray-Scott mesmo após a inclusão dos coeficientes de difusão, sejam quais forem os valores desses coeficientes (lembrando que estamos nos restringindo a valores positivos dos parâmetros e coeficientes).

Esse é um resultado à primeira vista surpreendente. Em geral, o surgimento de padrões complexos e não homogêneos em sistemas reativos-difusivos está relacionado à desestabilização de um ou mais estados de equilíbrio homogêneo causada pela introdução dos coeficientes de difusão (conhecida como instabilidade de Turing)[3].

Entretanto, no caso do modelo de Gray-Scott, o surgimento de padrões complexos e não homogêneos não decorre da instabilidade de Turing, uma vez que o surgimento de padrões não triviais nesse modelo ocorre mesmo quando apenas o estado de equilíbrio trivial (u*,v*)=(1,0) está presente [1].

Implementação

Será usado o método FTCS (Foward Time Central Space) para integrar as equações do modelo. Como existem explicações do método em toda literatura e em outras entradas da Wiki Título do link, a explicação aqui será sucinta.

O método consiste em discretizar a derivada parcial em relação ao tempo para frente e discretizar as derivadas parciais de segunda ordem em relação ao espaço centralmente. Para uma função f(x,y,t):


ftf(x,y,t+Δt)f(x,y,t)Δt


2fx2f(x+Δx,y,t)2f(x,y,t)+f(xΔx,y,t)Δx2


2fy2f(x,y+Δy,t)2f(x,y,t)+f(x,yΔy,t)Δy2


A partir das duas últimas equações acima é fácil mostrar que o laplaciano em duas dimensões, como será usado no presente trabalho, pode ser escrito como


2f(x,y,t)f(x+Δx,y,t)2f(x,y,t)+f(xΔx,y,t)Δx2+f(x,y+Δy,t)2f(x,y,t)+f(x,yΔy,t)Δy2


Fazendo Δx=Δy=Δh, pode-se simplificar a discretização do laplaciano para


2f(x,y,t)=f(x+Δh,y,t)+f(xΔh,y,t)+f(x,y+Δh,t)+f(x,yΔh,t)4f(x,y,t)Δh2


Usando a notação f(x±Δh,y±Δh,t±Δt)fi±1,j±1n±1 é possível então escrever as equações do modelo de forma discretizada:


ui,jn+1=ui,jn+[ui,jn(vi,jn)2+F(1ui,jn)+Duui+1,jn+ui1,jn+ui,j+1n+ui,j1n4ui,jnΔh2]Δt

vi,jn+1=vi,jn+[ui,jn(vi,jn)2(F+k)vi,jn+Dvvi+1,jn+vi1,jn+vi,j+1n+vi,j1n4vi,jnΔh2]Δt


Utilizou-se uma rede quadrada de tamanho 69×69 com condições de contorno periódicas. O estado do inicial do sistema é aquele em que todos os pontos estão no estado de equilíbrio estável trivial (u,v)=(1,0), exceto o ponto central, em que é introduzida uma perturbação com (u,v)=(0,1), como simulado por Sayama[2].

A formação de padrões no modelo depende fortemente não apenas dos parâmetros e coeficientes de difusão, mas também de Δh e Δt.


Referências

  1. 1,0 1,1 C. Gros, "Complex and Adaptive Dynamical Systems". Springer-Verlag, Berlim, 2015.
  2. 2,0 2,1 2,2 H. Sayama, "Introduction to the Modeling and Analysis of Complex Systems". Open SUNY Textbooks, Geneseo, NY, 2015.
  3. Week 13, MCB111: Mathematics in Biology (Fall 2021)