Modelo de Gray-Scott: mudanças entre as edições

De Física Computacional
Ir para navegação Ir para pesquisar
Wallec (discussão | contribs)
Wallec (discussão | contribs)
Sem resumo de edição
Linha 1: Linha 1:
==Análise de estabilidade==
== Análise de estabilidade ==


O modelo de Gray-Scott depende dos parâmetros <math>F, k</math> e dos coeficientes de difusão <math>D_{u}, D_{v}</math>. É fácil mostrar que, ignorando os termos de difusão, o sistema possui estado de equilíbrio em <math>(u^{*}, v^{*}) = (1, 0)</math>.
Em geral, a análise de estabilidade linear de sistemas reativos-difusivos se constitui em duas etapas. Inicialmente se determinam os estados de equilíbrio homogêneo estáveis (igualando os coeficientes de difusão a zero). A seguir se analisa se a inclusão dos coeficientes de difusão gera instabilidade naqueles estados.


'''Afirmação''': O modelo de Gray-Scott possui estado de equilíbrio homogêneo em <math>(u^{*}, v^{*}) = (1, 0)</math>.  
A difusão normalmente tende a homogeneizar o sistema. O surgimento de padrões complexos e não homogêneos ocorre nos casos de exceção a essa regra, quando a difusão torna os estados de equilíbrio instáveis.


'''Demonstração''': Resolvendo o sistema de equações do modelo com <math>\frac{\partial u}{\partial t} = 0</math> e <math>\frac{\partial v}{\partial t} = 0</math> e fazendo <math>D_{u} = D_{v} = 0</math>, temos
'''Nota''': A análise em toda esta seção pressupõe sempre que os parâmetros e coeficientes de difusão são positivos.




<math>0 = -uv^2 + F(1-u)</math>
=== Estado de Equilíbrio Trivial ===
 


<math>0 = uv^2 - (F+k)v</math>
O modelo de Gray-Scott depende dos parâmetros <math>F, k</math> e dos coeficientes de difusão <math>D_{u}, D_{v}</math>. É fácil mostrar que, ignorando os termos de difusão, o sistema possui estado de equilíbrio estável em <math>(u^{*}, v^{*}) = (1, 0)</math> para quaisquer valores positivos dos parâmetros.


'''Demonstração'''. O sistema de equações do modelo, com <math>\frac{\partial u}{\partial t} = 0</math> e <math>\frac{\partial v}{\partial t} = 0</math>, fazendo <math>D_{u} = D_{v} = 0</math>, é dado por


É então trivial que o sistema acima é satisfeito quando <math>(u^{*}, v^{*}) = (1, 0)</math>.


Esse estado de equilíbrio é estável no modelo de Gray-Scott para quaisquer valores positivos de <math>F, k, D_{u}</math>, e <math>D_{v}</math>. É possível mostrar isso a partir da determinação dos autovalores da matriz
<math>0 = -uv^2 + F(1-u)</math>


<math>0 = uv^2 - (F+k)v \quad (1)</math> 


<math>\left(J - D \omega^2\right)\Bigg|_{f = f_{eq}}</math>


Logo, é trivial que o sistema acima é satisfeito quando <math>(u^{*}, v^{*}) = (1, 0)</math>. Esse estado de equilíbrio é estável porque a matriz jacobiana <math>J|_{(u^*,v^*) = (1,0)} = \left(\begin{array}{cc}-F&0\\0&-F-k\end{array}\right)</math> possui traço negativo e determinante positivo<ref name=Sayama260>H. Sayama, "Introduction to the Modeling and Analysis of Complex Systems", p. 287. Open SUNY Textbooks, Geneseo, NY, 2015.</ref>.


Aqui, <math>J</math> é a matriz jacobiana dos termos de reação, <math>D</math> é a matriz diagonal dos termos de difusão e <math>\omega</math> é o parâmetro que determina a frequência espacial das perturbações. A demonstração da validade desse método pode ser encontrada na referência<ref name=Sayama260>H. Sayama, "Introduction to the Modeling and Analysis of Complex Systems", p. 287. Open SUNY Textbooks, Geneseo, NY, 2015.</ref>. Aplicando ao modelo de Gray-Scott em <math>(u^{*}, v^{*}) = (1, 0)</math>
Se agora incluímos os termos de difusão <math>D_{u}</math> e <math>D_{v}</math>, deve-se levar em consideração a matriz <math>\left(J - D \omega^2\right)\Bigg|_{f = f_{eq}}</math>. Aqui, <math>J</math> é a matriz jacobiana dos termos de reação, <math>D</math> é a matriz diagonal dos termos de difusão e <math>\omega</math> é o parâmetro que determina a frequência espacial das perturbações. A demonstração da validade desse método pode ser encontrada na referência<ref name=Sayama260>H. Sayama, "Introduction to the Modeling and Analysis of Complex Systems", p. 287. Open SUNY Textbooks, Geneseo, NY, 2015.</ref>. Aplicando ao modelo de Gray-Scott em <math>(u^{*}, v^{*}) = (1, 0)</math>:




<math>\left( \left(\begin{array}{cc}-F-v^2&-2uv\\v^2&-F-k+2uv\end{array} \right) - \left(\begin{array}{cc}D_u&0\\0&D_v\end{array} \right) \omega^2  \right) \Bigg|_{(u,v) = (1,0)} = \left(\begin{array}{cc}-F - D_u \omega^2&0\\0&-F -k - D_v \omega^2\end{array} \right)  </math>
<math>\left( \left(\begin{array}{cc}-F-v^2&-2uv\\v^2&-F-k+2uv\end{array} \right) - \left(\begin{array}{cc}D_u&0\\0&D_v\end{array} \right) \omega^2  \right) \Bigg|_{(u^*,v^*) = (1,0)} = \left(\begin{array}{cc}-F - D_u \omega^2&0\\0&-F -k - D_v \omega^2\end{array} \right)  </math>




Linha 35: Linha 37:




Ambas desigualdades são imediatamente satisfeitas para quaisquer valores positivos de <math>F, k, D_{u}</math>, e <math>D_{v}</math>. Portanto, o estado de equilíbrio <math>(u^{*}, v^{*}) = (1, 0)</math> é estável no modelo de Gray-Scott nessas condições.
Ambas desigualdades são imediatamente satisfeitas para quaisquer valores positivos de <math>F, k, D_{u}</math>, e <math>D_{v}</math>. Portanto, o estado de equilíbrio <math>(u^{*}, v^{*}) = (1, 0)</math> permanece estável no modelo de Gray-Scott mesmo após a inclusão dos coeficientes de difusão, sejam quais forem os valores desses coeficientes (lembrando que estamos nos restringindo a valores positivos).
 
 
=== Estados de Equilíbrio Não Triviais ===
 
 
Como o modelo claramente exibe padrões complexos não homogêneos para diversos valores positivos de <math>F, k, D_{u}</math>, e <math>D_{v}</math>, devem então existir outros estados de equilíbrio. De fato, há outros dois estados de equilíbrio não triviais, soluções do sistema de equações (1).<ref name=Wang>Tingting Wang et al., "Fractional Gray–Scott model: Well-posedness, discretization, and simulations, Computer Methods in Applied Mechanics and Engineering", Volume 347, 2019, pp. 1030-1049, ISSN 0045-7825, https://doi.org/10.1016/j.cma.2019.01.002.</ref>


Como o modelo claramente exibe padrões complexos não homogêneos para diversos valores positivos de <math>F, k, D_{u}</math>, e <math>D_{v}</math>, devem então existir outros estados de equilíbrio e pelo menos um deles deve ser instável para determinados valores dos parâmetros. De fato, há outros dois estados de equilíbrio.<ref name=Wang>Tingting Wang et al., "Fractional Gray–Scott model: Well-posedness, discretization, and simulations, Computer Methods in Applied Mechanics and Engineering", Volume 347, 2019, pp. 1030-1049, ISSN 0045-7825, https://doi.org/10.1016/j.cma.2019.01.002.</ref>


Os outros estados de equilíbrio do modelo de Gray-Scott, ditos não triviais, são <math>(u_{+},v_{-})</math> e <math>(u_{-},v_{+})</math>, com  
Os outros estados de equilíbrio do modelo de Gray-Scott, com a restrição <math>F\geq4(F+k)^2</math>, são <math>(u_{+},v_{-})</math> e <math>(u_{-},v_{+})</math>, com  




Linha 48: Linha 55:
<math>\gamma = \frac{F + k}{F}</math>
<math>\gamma = \frac{F + k}{F}</math>


Esses estados são de equilíbrio quando <math>F\geq4(F+k)^2</math>.


== Referências ==
== Referências ==


<references/>
<references/>

Edição das 20h31min de 19 de fevereiro de 2022

Análise de estabilidade

Em geral, a análise de estabilidade linear de sistemas reativos-difusivos se constitui em duas etapas. Inicialmente se determinam os estados de equilíbrio homogêneo estáveis (igualando os coeficientes de difusão a zero). A seguir se analisa se a inclusão dos coeficientes de difusão gera instabilidade naqueles estados.

A difusão normalmente tende a homogeneizar o sistema. O surgimento de padrões complexos e não homogêneos ocorre nos casos de exceção a essa regra, quando a difusão torna os estados de equilíbrio instáveis.

Nota: A análise em toda esta seção pressupõe sempre que os parâmetros e coeficientes de difusão são positivos.


Estado de Equilíbrio Trivial

O modelo de Gray-Scott depende dos parâmetros F,k e dos coeficientes de difusão Du,Dv. É fácil mostrar que, ignorando os termos de difusão, o sistema possui estado de equilíbrio estável em (u*,v*)=(1,0) para quaisquer valores positivos dos parâmetros.

Demonstração. O sistema de equações do modelo, com ∂u∂t=0 e ∂v∂t=0, fazendo Du=Dv=0, é dado por


0=−uv2+F(1−u)

0=uv2−(F+k)v(1)


Logo, é trivial que o sistema acima é satisfeito quando (u*,v*)=(1,0). Esse estado de equilíbrio é estável porque a matriz jacobiana J|(u*,v*)=(1,0)=(−F00−F−k) possui traço negativo e determinante positivo[1].

Se agora incluímos os termos de difusão Du e Dv, deve-se levar em consideração a matriz (J−Dω2)|f=feq. Aqui, J é a matriz jacobiana dos termos de reação, D é a matriz diagonal dos termos de difusão e ω é o parâmetro que determina a frequência espacial das perturbações. A demonstração da validade desse método pode ser encontrada na referência[1]. Aplicando ao modelo de Gray-Scott em (u*,v*)=(1,0):


((−F−v2−2uvv2−F−k+2uv)−(Du00Dv)ω2)|(u*,v*)=(1,0)=(−F−Duω200−F−k−Dvω2)


Para que o estado de equilíbrio (u*,v*)=(1,0) seja estável é necessário que o determinante da matriz acima seja positivo e o seu traço seja negativo. Obtém-se então


(F+Duω2)(F+k+Dvω2)>0

−2F−(Du+Dv)ω2−k<0


Ambas desigualdades são imediatamente satisfeitas para quaisquer valores positivos de F,k,Du, e Dv. Portanto, o estado de equilíbrio (u*,v*)=(1,0) permanece estável no modelo de Gray-Scott mesmo após a inclusão dos coeficientes de difusão, sejam quais forem os valores desses coeficientes (lembrando que estamos nos restringindo a valores positivos).


Estados de Equilíbrio Não Triviais

Como o modelo claramente exibe padrões complexos não homogêneos para diversos valores positivos de F,k,Du, e Dv, devem então existir outros estados de equilíbrio. De fato, há outros dois estados de equilíbrio não triviais, soluções do sistema de equações (1).[2]


Os outros estados de equilíbrio do modelo de Gray-Scott, com a restrição F≥4(F+k)2, são (u+,v−) e (u−,v+), com


u±=12(1±1−4γ2F)

v∓=12γ2(1∓1−4γ2F)

γ=F+kF


Referências

  1. ↑ 1,0 1,1 H. Sayama, "Introduction to the Modeling and Analysis of Complex Systems", p. 287. Open SUNY Textbooks, Geneseo, NY, 2015.
  2. ↑ Tingting Wang et al., "Fractional Gray–Scott model: Well-posedness, discretization, and simulations, Computer Methods in Applied Mechanics and Engineering", Volume 347, 2019, pp. 1030-1049, ISSN 0045-7825, https://doi.org/10.1016/j.cma.2019.01.002.